Bahia Notícias – Entrevista com Gabriel Rossi

Gabriel Rossi

A proximidade das eleições municipais reforça ainda mais a carga de trabalho dos profissionais da área. O paulista Gabriel Rossi, especialista em marketing digital eleitoral,  conversou com o Bahia Notícias sobre o mercado em que atua, além de explicar termos técnicos como “neoeleitor” e “netnografia”, que se referem ao perfil do usuário de internet que interage com os candidatos nas redes sociais e a pesquisa por características dos potenciais eleitores, respectivamente. Rossi também ressalta a importância de conhecer o cenário político local e como enxerga as estratégias de marketing digital na Bahia.

Bahia Notícias – Como atua o profissional de marketing digital no mercado?

Gabriel Rossi - O mercado ainda é muito novo e tem muita gente que é especialista, mas não tem base interna específica do marketing para atuar. Mas, no melhor dos mundos, esse profissional é alguém que entende o público final, seja eleitor ou consumidor, e está muito mais preocupado com o comportamento do público do que com tecnologia. A maioria dos profissionais comete o erro de prestar mais atenção nessa última e não no comportamento.

BN – O neoeleitor é um conceito utilizado para definir o eleitor participativo que interage com os candidatos nas redes e influencia no andamento das campanhas. Qual é o perfil do neoeleitor?

Rossi - O neoeleitor ainda é bem caracterizado por jovens escolarizados e formadores de opinião. Mas o conceito começa a ficar mais abrangente e passa a incluir a mulher acima dos 30 que quando utiliza a internet é extremamente eficiente; consome política, debate sobre os candidatos. O neoeleitor é aquele que está conectado 24h ou boa parte do dia, é cético e debate com eficiência. Não se apega tanto ao partido, porque há um fenômeno chamado desqualificação partidária. Ele está mais preocupado com as propostas do candidato. Esse candidato não pode ser só diferente, ele precisa continuar sendo diferente.

BN – Você disse que os candidatos podem criar vínculos com os seus eleitores via redes sociais. Mas os neoeleitores céticos confiam nas respostas feitas pelas assessorias?

Rossi – Esse é o principal erro da maioria dos candidatos. Eles não levam em consideração o conceito de autenticidade. E o neoleitor quer ser ouvido e obter uma resposta rápida. Ele busca no candidato autenticidade, transparência e confiança. Boa parte dos candidatos ainda não tem essas características e não entendem a internet.  Se analisarmos a campanha de 2010, o que vimos na rede foi uma eleição polarizada e uma guerra para surdos, militante contra militante.

BN – O candidato deveria responder pessoalmente aos eleitores?

Rossi - Não tenho a utopia que o candidato majoritário consiga responder a todos. Mas é bom deixar bem claro que a assessoria é o que vem do candidato. Para cativar o neoeleitor, se comunicar com ele, inovar e surpreender, não basta possuir aqueles velhos perfis das redes sociais, porque lá estão as pessoas que tendem a votar naquele candidato naturalmente. É preciso formar novas bases para relacionamento, entender o comportamento do eleitor. É preciso ser criativo, inovar e ser autêntico. E 99% dos políticos ainda não fazem isso.

BN – Você utiliza uma ferramenta de monitoramento chamada de “netnografia”, que permite entender o comportamento do eleitor dentro das comunidades. Como funciona essa ferramenta?

Rossi - A “netnografia” é a vanguarda da pesquisa moderna. As pesquisas políticas atingem a questão geográfica onde o eleitor mora, a questão demográfica, sexo e idade do eleitor. Utiliza a questão psicográfica, o que importa para o eleitor, mas há uma lacuna que a pesquisa normal da política não leva em consideração: o comportamento do eleitor online, como eles se conecta com outros eleitores na internet. A “netnografia” nada mais é do que a antropologia digital.

BN – E sobre o cenário baiano, como você avalia o uso das redes sociais nas campanhas políticas do estado?

Rossi – Na Bahia, a principal influência das redes sociais para qualquer candidato é o impacto na grande mídia. Eu gosto, por exemplo, de chamar o Twitter de uma disputa colaborativa em torno de pauta. Boa parte do que se fala no Twitter verbaliza na grande mídia. Um problema sério no marketing eleitoral brasileiro, na Bahia e em outros Estados, é que durante o período eleitoral, várias empresas se propõem a fazer marketing digital para os políticos, só que essas empresas não entendem o cenário político. Uma empresa que trabalha as redes no cenário corporativo, muito provavelmente, não entende o cenário político na internet. Esse é o principal erro. O candidato mais inteligente que entende o neoeleitor vai se basear em algo diferente, vai sair da guerra de oposição, do FlaxFlu e fazer algo parecido com o que a Marina Silva fez.

BN – Nos grandes centros urbanos, o acesso às redes sociais já é grande, mas e nos meios rurais? Políticos de pequenos centros devem investir em marketing digital?

Rossi – É mais importante em cidades com grande quantidade de gente, mais verticalizadas, porque não se pode chegar a todo mundo no corpo a corpo. Claro que centros urbanos que têm uma banda larga mais desenvolvida saem ganhando. O que caracteriza uma eleição forte nas redes sociais primeiro é a conjuntura. A conjuntura de mudança tende a usar mais as redes sociais. Depois é a penetração da banda larga e o interesse do eleitor. Essas três características formam a base para uma campanha forte nas redes sociais que primeiramente corresponde mais aos centros urbanos.

Fonte: Bahia Notícias – 15/06/2012

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